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2017… em palavras.

No momento que escrevo este post estou no cabeleireiro. Sitio mais inusitado para escrever, não é? Devia era estar a ler revistas com sugestões de vestidos para o fim de ano…
Dou por mim a pensar que talvez o cabeleireiro tenha sido das minhas acções mais constantes de 2017, assim como o ginásio. Não posso, não devo, nem quero fugir.
Mas…. Quem não gosta de quebrar a regra e escapar a um dever?

2017 foi ano de retomar esta capacidade de cumprir e quebrar, sem culpa. Metade do ano foi a fazer trabalhos de doutoramento. Incluindo aquele que tens 2 meses para fazer e a 2 semanas de entregar… É preciso começar do 0 porque está tudo fora do sítio. Trabalhos, aulas, conferências… Não há como escapar. A verdade é que metade do meu ano foi passado com olhos na política, na geoestratégia, na economia (que passei a adorar), na governance. Tão rica, tão feliz, tão mais adulta que me tornei com este conhecimento que adquiri. Se foi fácil? Prefiro dizer que valeu muiiiiito a pena. E valeu. Faria tudo outra vez. Mas agora… O caminho é outro.

2017 fez de mim uma pessoa ainda mais focada. Aprendi a dizer não. Voltei a conseguir perceber o que não quero e isso… É meio caminho andado para a resolução e revalidação pessoais. Durante uns 2/3 anos houve um hiato de alegria na minha vida. Acontece, às vezes acontece. Vamos ao fundo para depois apreciar melhor a subida. Deixamos de ver o sol para poder apreciar as estrelas. Hoje sei que foi isso mesmo: eu tinha as prioridades trocadas e não percebia. Só pela subida, pela conquista, que infindável capacidade de sorrir que readquiri… Valeu tudo. Voltei ao sorriso sem culpa, ao viver sem medo, ao coração aberto, à ajuda ao próximo, voltei a ter os meus amigos e a ter tempo com eles. Mas percebi também que se não conseguir fazer alguma coisa… Está tudo bem. O mundo não acaba, a vida não castiga… É só isso. Dou sempre o meu melhor, sempre. É isso é que conta.

Aprendi a ter expectativas -4. A não me desiludir com aquilo ou aquelas pessoas que afinal não são vitais para a minha existência. Aprendi a seleccionar. A filtrar más energias, toxicidade, show off, para bem da minha saúde. E posso dizer-vos… É maravilhoso.

Passei mais tempo com quem amo. Disse muito mais vezes ‘gosto de ti’ e recebi de volta. Cimentei amizades, renovei laços e votos… E tornei-me leve.

Reforcei a ideia que os estranhos são amigos que não conheço. Ganhei 10 pessoas maravilhosas na minha turma de doutoramento que vão ficar para toda a vida. Conheci convidados maravilhosos, histórias de vida apaixonantes, exemplos desconcertantes de quem tinha tudo para desistir e está ali, firme para o que vier mais.

Lancei um blog, este blog, que tanto me orgulha e me dá vontade para continuar.

Mas 2017 também me levou uma pessoa que amo. E nunca vou deixar de amar. Um pessoa que me ensinou o sentido da família, que me ensinou a amar mesmo quando não é tudo perfeito. A falta é brutal, mesmo à distância… a falta é brutal. O amor pode ter várias formas. A distância física é muito pouco quando se ama alguém que foi um exemplo para nós. E que, sabemos, nos amava de volta. Mas não quero ficar na perda… Quero celebrar a sua vida. A imensa gratidão de o ter tido comigo 33 anos, de me ter dado nome, de me ter embalado e baptizado. As lições que deu. O dever que cumpriu. O olhar meigo, a bondade, o discernimento, a inteligência… Sim, era o mais inteligente de todos nós. As salvas no seu funeral que ainda hoje ecoam na minha cabeça lembram-me isto tudo.

Sou uma pessoa com tanta sorte. E sou profundamente grata à vida por esta oportunidade de, dia após dia, ano após ano… Poder começar de novo.
Eu acredito tanto mas tanto que 2018 vai ser FA-BU-LO-SO.
Acreditem também. Juntos somos mais fortes.

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5 perguntas a Cristina Felizardo

A Cristina Felizardo é especialista em aconselhamento relacionado com processos de luto. O seu apelido faz jus à forma como encara a vida: sente-se assim, felizarda!

1- Mas o que é isto do luto?

A palavra luto pode ser bastante assustadora. Normalmente, quando sou convidada para uma conferência ou para dar uma palestra sobre o tema, inevitavelmente a reação das pessoas ao ouvirem a palavra luto é quase sempre a mesma: olhar arregalado e assustado, contração muscular do corpo e tensão no rosto, tal e qual como se tivessem sido atingidos por um soco no estômago vindo do nada. Não é mais do que uma reação primeiro de surpresa, depois de dor e por fim de defesa.

De facto, tal apenas acontece porque intimamente associamos o luto a uma perda difícil, à perda de alguém que amamos, que nos deixou sem aviso prévio, que nos faz doer de saudade, dor essa que tentamos minimizar fugindo, evitando ou confrontando.

O luto é isso tudo. É um processo de reação a uma perda emocional profunda, que decorre no tempo, de forma mais ou menos prolongada.

Se perdemos quem amamos, é suposto doer. E como não controlamos a vida, nem podemos evitar sofrer estas perdas, surge o luto como forma saudável para aprendermos a viver sem a pessoa amada.

Normalmente é aqui que consigo serenar a plateia e prosseguir com a palestra.

2- O luto é só por morte?

A morte dos nossos entes queridos é uma das causas do luto. E em Portugal, de facto, quando falamos de luto, culturalmente associamos o luto à morte. Mas cada vez mais, as pessoas já começam a associar a palavra luto a outro tipo de perdas, como por exemplo, quando uma classe profissional se sente defraudada nas suas expetativas e nas manifestações lemos cartazes como “Os enfermeiros estão em luto”.

Podemos identificar cinco causas principais que desencadeiam o processo de luto:

O afastamento da pessoa querida, que pode ser por morte, mas também, por divórcio ou separação conjugal, emigração e encarceramento;

O dano ao amor próprio no caso da amputação de algum membro, ou devido a alterações patológicas no corpo, como paralisia ou perda de autonomia motora;

A perda de fantasia de afeto, no caso da perda gestacional ou no nascimento de uma criança com deficiência;

A desvalorização social por perda de emprego ou desqualificação profissional;

O luto antecipatório que surge em contexto de doença degenerativa e/ou terminal.

Temos ainda os lutos censurados que estão associados ao luto por perda de animais de estimação e de objetos com valor afetivo.

3- Todos fazem o luto da mesma maneira?

Não há fórmulas para o luto. Ou seja, o luto é vivido de forma individual e solitária. Por três simples razões:

Não somos iguais. Todos temos traços de carácter e de personalidade que nos distinguem uns dos outros. Alguns mais otimistas e outros mais pessimistas. Alguns mais resilientes e outros menos adaptativos. Alguns mais pragmáticos e outros mais sonhadores.

Não temos o mesmo passado. Cada um de nós teve vivências distintas e únicas que nos deram experiências de perdas e de como lidar com elas. Podemos ter experiências de luto antigas que nos ensinam como lidar com uma perda recente.

Não amamos da mesma maneira. A intensidade do vínculo afetivo vai influenciar a forma e o tempo que demora este processo de luto.

4- Como posso ajudar quem está em luto?

Normalmente quando temos um familiar ou amigo a sofrer por uma perda profunda, ficamos, também nós, aflitos; primeiro porque empatizamos na sua dor, segundo porque ao termos a noção de quanto dói, queremos cuidar dele e aliviar o seu sofrimento. Afinal, cuidamos de quem amamos.

No entanto, se admitirmos que o luto é uma caminhada individual e solitária, em boa verdade, resta muito pouco que nós, família e amigos, possamos fazer para ajudar quem está em luto.

Mas aqui o pouco é muito, isso vos garanto. Basta apenas estar lá. Sem preencher os silêncios com conversas de circunstância, sem fazer juízos de valor, sem estar com pressa para que a dor passe. Basta estar lá pelo outro, ter disponibilidade para ele e escutar, livre de julgamentos, o que ele tem a dizer.

5- Para que fazemos o luto?

Essa é fácil! ?

Para voltarmos a ser felizes!

Uma amiga uma vez disse-me: “Andamos todos tão apressados a ser felizes que deixamos de ter tempo para as tristezas”. O Luto é o tempo necessário para viver a tristeza do amor que perdemos. Só depois, a alegria voltará a ter espaço para regressar. Quando ambas as emoções encontram o seu equilíbrio, aí voltaremos a sentir a felicidade.

O que aprendi com a minha caminhada pessoal e profissional?

De que a vida é demasiado preciosa para não ser bem vivida.

Por isso, façam o favor de ser felizes!

Conheci a Cristina há cerca de um ano. Tal como desta vez, foi convidada do Diário da Manhã, da TVI e TVI24, foi num dos feriados de Dezembro. E foi melhor sinal que recebemos nessa manhã: valia a pena estar ali, mesmo quando o país estava (quase) todos a dormir. A forma como fala de luto é doce, como que a colorir uma mandala delimitada de negro e que apenas pode ser preenchida por cada um de nós. À medida que vamos conversando, a Cristina vai dando os lápis. Nunca falha na cor de que precisamos. E, ao fim de algum tempo, quando olhamos de novo… uma página está completa. Podemos apreciar, de longe, que está tudo lá. É assim que me sinto quando falo com a Cristina. Transmite paz, serenidade, doçura. E sorri. Sim, para se falar de luto é preciso sorrir. Luto não é (apenas) chorar. Luto é aceitar, erguer a cabeça e agradecer a vida de alguém ou o tempo que passou na nossa (vida). É celebrar! Nem sempre temos capacidade de o fazer. É aqui que a Cristina, com um sorriso imenso, faz magia: uma luz, um sinal, uma palavra. Qualquer coisa pequenina pode significar tanto neste processo… e quem já passou por isto é uma esperança para quem chegou agora.

Sim… todos passamos por isto. Sem excepção. Nesta altura do Natal estamos mais vulneráveis aos sentimentos. E, às vezes, muita vezes…. não escolhemos o que sentimos. Conseguimos, isso sim, permitir que nos faça bem ou mal. Aceitar é fundamental mas… seguir em frente, também!

 

Podem encontrar a Cristina em  www.cfeliz.pt

 

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5 perguntas a Ruben Alves

Domingo foi a ante-estreia do documentário “As Vozes do Fado” realizado por Christophe Fonseca e Ruben Alves, que dirigiu “A Gaiola Dourada”.Conversei com o Ruben, no final sobre esta música tão portuguesa.

 

1- Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre fado?

Surgiu do convite que me foi feito pela Universal (editora) para fazer um disco sobre o fado e eu então fui ter com a nova geração, quem eu achava engraçado cantar os temas da Amália e de repente pensei ‘eu vou estar com eles mas porque é que eu não pego na minha câmara e vou pelas ruas e peço para me falarem do fado?’. Achei super interessante do que se está a passar agora, esta nova geração de jovens, um bocado ‘in’, que ouve electro mas que ao mesmo tempo sentem o fado. Há uma sequência no início onde estão uns jovens guitarristas que são todos super punk, jovens de 18 anos, 20 anos, super punk e ao mesmo tempo gostam do fado e estão a tocar viola como se fosse uma guitarra eléctrica. Acho isso maravilhoso e deu-me vontade de dizer ‘espera lá, vou mostrar isso’. Mas não só! Obviamente que depois dentro do fado queria também uma credibilidade e fui ter com o prof Rui Vieira Nery para ele perceber e quando ele me disse ‘espere lá, houve o fado dançado, a influência de África’. Fiquei pasmado e fui ter com os miúdos dos arredores, vindos de África que me diziam que não sabiam o que era o fado mas agora estavam a perceber. Acho isso fantástico!

2- Faz sentido mostrar o fado mas também explicar as origens?

Exactamente. Mas ao mesmo tempo pensei ‘será que as pessoas não estão já fartas de fado? E não sabem já isto tudo de cor?’ E afinal apercebi-me que há muita gente que não sabe das origens, de onde vem… se alguma coisa perceberam melhor é espectacular.

3- É um documentário sobre o fado ou sobre Amália?

Não, é um documentário sobre o fado. Agora, há uma parte, uma homenagem, obviamente à diva, aquela que foi arrebatadora que levou o fado para o mundo. Acho super interessante por exemplo ver um rapaz como o Vhils que hoje em dia está no mundo inteiro a trabalhar o seu street art aceitar o desafio que eu lancei para por uma Amália em calçada, na parede. E de repente ele disse ‘sim, tem tudo a ver, eu sou urbano, o fado é urbano, faz todo o sentido. Vamos fazer’.

4- E faltou alguma coisa aqui?

Falta imensa coisa… o problema é escolher para 1h20, tentar pôr tudo, de vez em quando é só um cheirinho de alguma coisa, de alguma pessoa, mas não podia… o fado nunca mais pára, há muitas pessoas que eu gostava de ter tido mas não estavam livres, não se podia e eu não podia filmar durante 2 anos. Filmei alguns meses, ía e voltava mas senão teria de ser feito um documentário sobre 5 anos e eu não podia fazer isso. Havia muitas coisas para se fazer, por exemplo, falar com a Björk que quando está a pôr música e põe Amália, a voz da Mariza… gostava de perguntar o que sente ao fazer isso.

5- E o fado uma palavra?

Numa palavra? Fiz tanto essa pergunta a toda a gente… a Mariza diz ‘não há uma só palavra, há muitas’ para descrever o que é o fado. Eu se calhar diria portugalidade. Quando se percebe fado  percebemos a alma portuguesa.

 

 

Quem não se lembra d’ “A Gaiola Dourada”? Rimos todos até mais não, não foi? Pois foi. Por ter sido tão bom, as expectativas em relação a este “As Vozes do Fado” era alta. Por isso e porque já tinha visto uma compilação de imagens recolhidas no estúdio onde Amália gravava “à primeira”, como lembra no documentário a irmã Celeste.

Eu adoro fado. Sou muito suspeita, para mim 1h20 passou a correr, era capaz de ver o dobro. O Ruben Alves pediu a cada fadista uma viagem a um local que considerassem especial. Há de tudo: Caixa Alfama, Museu do Fado, Largo da Severa, Coliseu dos Recreios, uma tasca no Porto, uma viagem pela Ajuda… e depois há os fados… que valem tudo. Sabemos todos, todos, todos, Amália já os eternizou. Mas, para mim, o momento mais inusitado é aquele em que Vhils mostra uma parede composta por pedras da calçada, onde se vê a imagem de Amália e diz: ‘faz todo o sentido, Amália faz chorar as pedras da calçada e entretanto… deve chover’. É de arrepiar, rir, emocionar, do início ao fim.

O Ruben Alves e o Christophe Fonseca têm uma edição irrepreensível e o documentário uma qualidade de fotografia incrível. Não percam a oportunidade, assim como eu não deixei o Ruben ‘escapar’, só ía assistir e decidi depois que tinha de registar o momento. O realizar estava feliz pelo sucesso do documentário e eu em êxtase por voltar a ter um gravador nas mãos! É tão bom ser jornalista e estar no sítio certo, à hora certa  (ainda que com coisas/assuntos muito simples).

P.S.- ‘Definir fado numa palavra’ foi um pedido feito a todos os intervenientes no documentário. Achei por bem devolver a pergunta ao realizador. Vão poder confirmar quando chegar ao circuito comercial, depois de cumpridos compromissos contratuais. Tem co-produção TVI.