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A comoção

Comove-me a bondade. O dar, o cuidar, o querer estar presente, o nunca abdicar da presença de alguém nos momentos mais importantes mas, principalmente, naqueles mais restritos, os que ninguém vê, ninguém sabe e, por isso, ninguém pode estragar.

Comove-me quem faz o bem, quem se esforça por fazer os outros felizes só porque sim, quem corre, quem deixa tudo, quem percebe que faz a diferença.

Comove-me quem ama sem medida, quem tem um coração capaz de dilatar tanto que mais parece de elástico, quem usa todos os músculos do corpo para esticar mais um bocadinho e abraçar e chegar a quem precisa.

Comove-me alguém que nos deixa entrar no seu mundo, tão restrito (às vezes), tão especial (quase sempre), tão pouco dado ao entendimento. Mas também quem não se fixa aí, quem sabe sair, quem consegue adaptar-se a um outro que se apresenta, quem se esforça por se envolver nele… porque quer.

Fotografia: Carlos Ramos

Comovem-me as pessoas que têm a subtileza de se fazer notar sem se impor, que percebem como são indispensáveis pela palavra, pelo gesto, pelo exemplo.

Comove-me um abraço oferecido no silêncio, inusitado, com um suspiro profundo, com um entregar de carinho, sem truques nem chatices e que se transforma na melhor parte do dia.

Comove-me um beijo roubado, depois de tanto tempo à espera, de tantas tentativas falhadas, de tantas voltas se dar ao texto à procura de uma razão.

Comove-me a simplicidade, umas calças rotas, umas botas dobradas, uma t-shirt moldada ao corpo, um agasalho escuro. Comove-me o sol, o mar, o rir por tudo e por nada.

Comove-me o carinho, o gesto, o toque, o amor. Comovem-me as boas pessoas que preferem as acções em vez das palavras. Sempre.