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O amor incondicional

– “Tenho uma coisa para te contar… Hoje abracei um senhor que estava de olhar perdido, a ver o mar. Perguntei se podia ficar com ele, um instante”. A conversa da A. começou desta forma.

– “Sabes qual foi a resposta dele? ‘Olhe… se quiser ficar é a única a querer estar ao meu lado’… Doeu-me tanto que não imaginas”, disse.

– “Eu imagino. Mas… isso foi porquê?”, questionei.

– “Ele  foi viajar com os netos e só os via nas horas das refeições, tirando isso estava sozinho. Eles só precisavam de quem lhes pagasse a viagem”, explicou-me. “Sabes”, continuou, “o universo levou-o até mim e ali ficamos a conversar um bocadinho, os dois. Deu-me o prazer de parar e estar uns minutos a beber um chá, a descansar as pernas e a sentir a brisa do mar. No fim quem agradeceu fui eu”.

Deste lado do ecrã do telefone, eu sorri. A. lembrou-me aquilo que tenho sentido nos últimos tempos: estamos num rodopio constante, numa ansiedade e inércia simultâneas. As prioridades alteram-se, de um momento para o outro. Estamos doentes por falta de amor, pela nossa incapacidade crescente de nos colocarmos no lugar do outro. Fazemos correntes, vestimos camisolas, partilhamos publicações mas não damos um simples sorriso a quem passa. E é triste.

Naquele instante eu senti o que me escreveu, de seguida: “Ainda bem que o meu coração encontrou o teu. Gosto muito de ti”.

Sou uma sortuda. Ponto final.

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Onde estavas no 25 de Abril?

No 25 de Abril, eu estava em parte nenhuma. Nasci 10 anos depois, sou filha da liberdade, já.

Fotografia: Alfredo Cunha

No 25 de Abril, se eu existisse, provavelmente estaria no Terreiro do Paço ou no Largo do Carmo, bem no meio da confusão, como eu gosto, a registar tudo, perto do Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro ou Adelino Gomes, a tentar perceber tudo, a aborrecer Salgueiro Maia por uma declaração, como tantos fizeram.

No 25 de Abril, eu estaria certamente a celebrar. A rebentar de euforia, a enaltecer o que alguém fez por mim, por nós, para sempre.

 

No 25 de Abril, hoje, encho a alma de gratidão e percebo que há coisas que não têm preço e que a liberdade está no topo desse lote. Hoje, 44 anos depois, a minha profissão está directamente ligada a essa liberdade. Sem ela, não poderíamos existir, eu seria nada. Não consigo conceber o que seria, já tentei e não consigo. Admiro profundamente quem o viveu, quem resistiu e comovo-me sempre que o recordo. Liberdade para escrever, para denunciar, para mostrar, para acordar pessoas por uma declaração, para incomodar com uma manchete de jornal atrevida, com um lead de notícia arrojado… com a VERDADE.

Liberdade para mim é VERDADE: para se ser o que se quiser, ir onde se quiser, dizer o que se quiser, como se quiser, fazer o que bem se entende, gritar, exultar, venerar, seguir, sem dar explicações, sem dar ‘cavaco’ a ninguém. Só por que SIM.

Liberdade para dizer NÃO: não quero, não aceito, não preciso, não procuro, não me satisfaz, não me faz feliz.

Liberdade para dizer QUERO MAIS: mais liberdade (quem diria…?), mais dignidade, mais direitos, mais deveres, mais integração Nacional e Europeia, mais participação cívica, mais valorização. É lutar, é não desistir, é não baixar a cabeça perante qualquer contrariedade.

A Liberdade é um direito mas é dever de todos nós olhar por ela, fazer por ela, reinventá-la, não a deixar, sequer, adormecer.

Liberdade é tudo o que quiserem que seja. Liberdade é simples. Não compliquem.