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Os melhores.

É bonito quando são os jornalistas a reconhecer grandeza nos outros jornalistas. Tantas vezes isso devia ser feito e tão poucas acontece. O que importa agora é que para a revista TIME as personalidades do ano são jornalistas. Algumas deram a vida por isso, por não calarem, por acreditarem que por detrás de um sorriso nem sempre há um bom coração, por que ousaram provar isso. Pagaram caro mas não pode ser em vão. A todos os que denunciam, a todos os que não calam, a todos os que apontam o dedo e desconfiam da primeira versão que lhes contam, a todos os que questionam e voltam a questionar.

Dizem que o jornalista é curioso. Meus amigos, o jornalista é intuitivo e teimoso. Até arrepia.

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O Henrique

O Henrique.

Sempre o tratámos assim, sempre o tratei assim. Para nós, na redacção da TVI, só há o Henrique. Nunca houve o Henrique Garcia.

Todos falam da sua calma, a característica mais marcante, talvez. Eu quero salientar outra: a enorme discrição por que sempre pautou a vida. No campo pessoal não lhe conheço notícias, no campo profissional… caramba. O Henrique chegava à redacção e só sabíamos que lá estava se o víssemos. Sem alaridos, nem histerismos. Acho que só lhe ouvi um tom de voz mais alto a rir e, aí, não se inibia. No seu lugar, começava a perceber a realidade que iria apresentar, a ler jornais, a definir alinhamento com o editor. No ar, aquela firmeza dava-nos segurança. Quando sabíamos que era ‘o Henrique’ a presentar não havia qualquer dúvida nem preocupação. Ontem, encontrei-o no estúdio, minutos antes do Jornal das 8 começar, a treinar o pivôt de abertura… como se fosse preciso. Como se fosse preciso. E sorriu-me, como sempre.

48 anos… O Henrique tem mais anos de profissão que eu de vida. Só isso já me obrigaria a ter um infinito respeito. Mas o seu rigor, a sua isenção, o cuidado no contraditório, tão ‘esquecido’ pelas novas gerações sempre em busca do imediato, em busca do reconhecimento pelo espectáculo, o discernimento pelo que é a notícia, tão necessário. O Henrique é do tempo da verdade, daquela que não se esconde e se busca sempre, daquela que as redes sociais não ludibriavam e ele nunca quis saber muito disso. Do tempo em que a elegância é a forma como se tratam os outros e não o número do fato que se veste. Do tempo em que não se falha, nunca se falha à palavra, que foi sempre o mais importante.

E a memória. Não, querido Henrique, a memória não está nos computadores, como ontem me disse. Aí está o arquivo. A memória está em nós, naquilo que vivemos, no que absorvemos e aprendemos, no que guardamos e transmitimos. E na hora de transmitir, poucos o faziam assim. Ensinar pelo exemplo, pelo gesto, pela actuação.

Vê-nos aqui todos, ontem, a escutar o seu exemplo? É este o grande legado que nos deixa.

Ainda lembro bem aquela frase “26 de Fevereiro de 2009. Hoje, as notícias, começam aqui”. Foi o arranque da TVI 24. Estávamos todos em êxtase. O Henrique estava calmíssimo e foi ele quem abriu o canal.

Graças a si somos melhores profissionais. Sou melhor profissional. Já não vou herdar os pivôts da 25a Hora de domingo, já não vou ver as inicias HG na linha do ok (cada pivôt põe as suas iniciais numa linha da grelha do alinhamento, para que todos saibam que o texto foi visto por si).

Os jornalistas são, provavelmente, das piores classes laborais. Digo isto sem qualquer problema mas com muita mágoa: já senti na pele várias vezes a ira de colegas de profissão, o desprimor, o ataque fácil. Mas ontem a redacção da TVI deu uma grande lição a todos: estivemos unidos a prestar-lhe uma justa homenagem, nem podia ser de outra maneira.

– ‘Olá, Henrique’, disse.

– ‘Olá. Estás cá?’, respondeu-me.

– ‘É claro que estou, nem podia estar noutro lado’.

E deu-me um abraço forte, sentido. Olhamo-nos nos olhos e só me disse “Estamos vivos”. Como eu o percebo.

Mais tarde aproximei-me e, mais recatados, disse o que tinha de dizer, o que sentia, o imenso orgulho que tive em trabalhar com o Henrique nestes 11 anos de TVI. É uma conversa nossa. Os jornalistas sentem da mesma maneira. Só precisa de se olhar nos olhos e percebem tudo. E os olhos do Henrique não mentem. Apesar daquela “poker face” característica, ontem não foi possível disfarçar. Havia emoção nele e em nós. Em todos nós.

OBRIGADA, HENRIQUE. Estamos vivos.