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5 Perguntas a Catarina Canelas

Em semana de Aniversário da TVI e TVI 24 faz todo o sentido questionar uma das maiores promessas (e já certeza, também) da redacção. Tenho a certeza que já viram reportagens da Catarina.

1 – O que é uma boa história?

Uma boa história é aquela que nos cria desassossego de alma, que nos faz parar e pensar! É a que nos faz ficar agarrados frente a um ecrã, um jornal ou um livro, como se estivéssemos a ver o mundo pela primeira vez. E também aquela que nos faz desligar dos “likes e tweets”e nos faz voltar ao mundo real, onde há pessoas, lugares, dramas e até choro e risos. Se não houver arte para este “choque” com quem está a ver, nunca será uma boa história. Ou seja, se não soubermos contar uma boa história, ela nunca será uma boa história. E já vi tantas boas histórias “assassinadas” por serem mal contadas.

2- O que te apaixona na reportagem?

Ouvir ! É importante saber ouvir as pessoas e conversar com elas. Saber ser fiel quando transmito as emoções, as memórias, os estados de alma de quem fala comigo, sejam as inquietações ou a felicidade. É um privilégio poder ser os olhos e a voz das pessoas. Nos dias das notícias rápidas é bom ter uma pausa no discurso e ouvir com tempo, com toda a atenção, o que têm para nos dizer. Há cada vez menos momentos destes e é uma pena.

3 – Qual a história que mais te marcou?

Podia dizer-te que a que mais me marcou foi a dos sem abrigo “Um Lar Debaixo da Ponte” por ser uma história inédita, de uma beleza rara e por ter sido a minha primeira grande reportagem, que teve um fabuloso e raro impacto no país e na reação das pessoas. Mas depois disso fiz outras grandes reportagens que me marcaram ainda mais. A fuga dos portugueses de Angola em 1975 “O Lugar Onde Eu Fiquei” e “O Renascer das Cinzas” que conta a tragédia deste ano em Pedrogão Grande, onde morreram 65 pessoas.

4 – Porquê?

Escolhi as 3 reportagens porque embora em tempos, momentos e circunstâncias diferentes, têm tanto de igual. O que existe nelas é perda, é dor, angústia, drama, mas é sobretudo superação e resiliência. São pessoas que perderam tudo mas que seguem em frente e, em muitos casos, são aquele exemplo que precisamos para sentir que afinal os nossos problemas são irrelevantes.

5- Porque é que ainda vale a pena ser jornalista?

Tenho pensado nisso muitas vezes. Mas cada vez que me envolvo num trabalho de grande escala tenho seguramente a certeza de que as pessoas precisam deste jornalismo com rigor, exigência e dedicação. Ser jornalista é uma questão de ADN, é uma missão e um grande compromisso com a sociedade, com a nossa alma e o nosso ser. Quem não sentir isto, não venha! Ou fuja!

(É sempre assim: ela fresca e eu a morrer!! Aqui, no dia de aniversário da TVI.)

 

Não sei há quantos anos ouço a Catarina, nunca lhe perguntei, mas certamente há tantos quantos aqueles a que estou na TVI (vai para 11). Sempre registei a sua voz doce, o rigor no trabalho, a sua dicção sem igual… ficou no ouvido por que não a conhecia pessoalmente- eu estava em Queluz de Baixo, a Catarina em Coimbra. Depois de a conhecer, a minha ideia só saiu mais reforçada. Ficámos mais próximas quando eu fazia Jornal da Uma, ao fim de semana, aproveitávamos e passávamos mais tempo juntas, a redacção ao fim de semana tem sempre menos gente. A Catarina é daquelas pessoas que sentem, que conseguem estar no seu lugar e no lugar dos outros e é por isso que conta tão bem as histórias: nunca se esquece do seu lado mas isso não a impede de sentir, viver, cheirar, tocar, provar… tudo aquilo que um jornalista deve fazer, colocar todos os sentidos ao serviço de uma reportagem. Só assim se consegue fazer bem e, entre elas, a Catarina faz do melhor que já vi. Em cada trabalho, a repórter é os olhos de quem vai depois assistir. Tenho a certeza que em 99,9% das vezes o meu olhar não seria diferente. Não é apenas um dia de inspiração, não é apenas uma frase que lhe sai bem… por que saem todas bem. A Catarina sente, sem medo (nunca me vou cansar de dizer isto) e isso permite-lhe fazer uma reportagem sobre a tragédia dos incêndios, uma sala de matinés na margem sul ou uma peça com material de envios internacionais, sobre as tartarugas em vias de extinção que vão desovar a uma praia paradisíaca. Ela é jornalista mas é espectadora, é profissional mas é eficaz, é isenta mas é curiosa. E sabe perceber tão bem onde está uma boa história. Sim, ser jornalista é mesmo uma questão de ADN.

O ano passado foi particularmente grande e, um dia, numa das minhas muitas manhãs, a Catarina chegou a mim com um abraço cheio de carinho, um sorriso enorme (como habitualmente) e o olhar parado… e disse que precisava falar comigo. Puxou-me para uma sala de reuniões e sentámo-nos. Naquele instante passou-me tudo pela cabeça… e ela diz “tenho andado muito ausente nestas últimas semanas e isso tem uma razão”. Sustive a respiração, o tom era sério. “Nos próximos dias vou lançar um livro, tive uma proposta de uma editora sobre o tema de Moçambique e aceitei o desafio”. Naquele instante não sabia se lhe batia ou se respirava de alívio. Fizemos a festa, ali e depois no dia do lançamento. Fiquei e fico muito feliz por que sei o que a move, quais os seus valores, qual o seu foco: fazer mais, melhor, todos os dias, todos os assuntos. Respira, come, bebe jornalismo. E sonoriza como ninguém, a palavra mais difícil vira flor.

Nunca lhe disse mas tenho muito orgulho na nossa amizade.